M&N - Como começou
a sua carreira?
Gislaine - Fiz o curso de Direito no Instituição Toledo
de Ensino (ITE) mas, como era casada com um jogador de futebol, o Evandro
Nunes, resolvi não advogar e viver o meu conto de fadas. Somente
quando o meu marido foi para a Ponte Preta e precisou contratar um advogado
para conseguir receber o seu pagamento, é que comecei a pensar
em atuar. Na época, percebi que o processo não caminhava
e perguntei o motivo para o advogado e soube que era porque a ação
deveria tramitar na Justiça Desportiva. Quando o Evandro foi para
outro clube e teve novamente problemas, pedi para deixar-me cuidar do
processo, porque iria conduzi-lo de forma diferente. O problema da Justiça
Desportiva é que, apesar de todos os jogadores ganharem nas ações,
ela não tem força executiva da sentença. Depois de
tanta insistência, ele deixou e eu entrei com a ação
na Justiça do Trabalho. Afinal de contas, ele era um trabalhador
como outro qualquer, já que tinha carteira profissional e se encaixava
perfeitamente no Artigo 3º da Consolidação das Leis
do Trabalho (CLT): onerosidade, habitualidade, pontualidade. Com isso,
eu consegui penhorar os bens do clube e meu marido recebeu o que lhe era
devido.
M&N - E a fama de defensora
dos jogadores, como começou?
Gislaine - Quando ganhei o processo do meu marido, vários jogadores
ficaram sabendo. Nessa época, eu era conhecida apenas como a "mulher
do lateral". Daí, o presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais
do Estado de São Paulo, Rinaldo José Martorelli, me chamou
para cuidar de um processo dele, ganhei e fui convidada para trabalhar
lá. Um ano depois, nasceu a Lei Pelé que eu sempre digo
que foi feita para mim. Eu a mastiguei, triturei e fiz a minha vida em
cima dela.
M&N - Qual a sua opinião
sobre a Lei Pelé?
Gislaine - Eu só tenho que falar bem dessa lei. Ela foi o maior
presente que o legislador poderia dar aos atletas. A Justiça do
Trabalho foi muito mãe dos jogadores. Sem ela agasalhando tudo
aquilo que nós pedíamos, punindo os clubes corretamente
para que sentissem o peso da desobediência à lei, nada teríamos
conseguido. Eu não posso criticar o bilhete premiado que eu e meus
atletas ganhamos.
M&N - Quantos jogadores
o seu escritório assessora atualmente?
Gislaine - Hoje tenho em mãos mais de 400 processos em tramitação,
mas todo dia entra um novo. Entre os atletas que atendo estão,
Juninho Pernambucano e o Paulista, Gamarra, Luizão, Luiz Mário,
Maldonado, Athirson, Ricardo Oliveira, Rogério Ceni.
M&N - A senhora abriu uma
empresa de marketing para cuidar da imagem dos jogadores, como é
esse trabalho?
Gislaine - Com base em um curso que fiz na Europa sobre a construção
da imagem de um jogador de futebol, comecei a ensinar aos jogadores que
o maior investimento que devem fazer é com eles. Tudo que envolva
a imagem dos atletas eu assessoro. Vou ao cabeleireiro com eles, em lojas,
escolho perfume porque quero vê-los sempre bem vestidos e cheirosos.
Tenho uma professora de inglês que dá aula para eles gratuitamente
aonde quiserem porque eles têm que falar outra língua. Também
invisto na leitura dando assinatura de revista e livros para lermos juntos.
Enfim, sou uma mãe para eles.
M&N - O seu escritório
atua em todas as áreas do Direito?
Gislaine - Tudo o que o jogador precisar eu faço, mas de forma
terceirizada porque a equipe do escritório atua somente na área
do Direito Desportivo. Principalmente na parte tributária que é
mais complexa, contrato uma equipe para auxiliá-los. É claro
que não preciso terceirizar, por exemplo, uma investigação
de paternidade ou uma separação, porque isso é o
"abc" da advocacia.
M&N - Como a senhora orienta
os jogadores a lidar com as chamadas "Marias chuteiras"?
Gislaine - A revista “Veja” publicou uma matéria dizendo
que eu distribuo camisinha aos jogadores, mas não é bem
assim. Apenas digo que eles usem o preservativo. Com alguns que tenho
mais intimidade, antes de saírem para uma festa, pergunto se têm
camisinha e, se percebo que não a têm, mando buscar. Sempre
oriento todos eles para não se envolverem com esse tipo de mulher
que está preparada para buscar um filho de um jogador milionário,
para evitar problemas futuros. Caso aconteça, peço um exame
de DNA.
M&N - É difícil
administrar a vida dos jogadores? Eles questionam muito as suas atitudes?
Gislaine - Eles têm muita confiança no que digo. Às
vezes ligo para um atleta que nunca esteve no meu escritório e
ele já sabe quem eu sou. Outro dia meu pai estava ouvindo a rádio
Globo e, no intervalo de uma partida de futebol, um jogador saiu do campo
e disse que estava muito bravo por não receber salário e
que iria ligar para mim. E olha que eu nem o conhecia. Meu nome virou
sinônimo de buscar os direitos deles que estão obscuros e
de brigar com os dirigentes dos clubes.
O Fábio Costa e o Welber estavam afastados, fui com os dois em
um programa na televisão Bandeirantes e disse que os clubes estavam
correndo risco jurídico, porque é possível tirar
os dois tranqüilamente do clube, primeiro porque era discriminação
deixá-los afastados e segundo por que, se não jogam, sofrem
uma redução salarial, porque não ganham o bicho,
o que me permitiria fazer uma rescisão por justa causa. No dia
seguinte, os dois foram reintegrados ao time.
O caso do Luizão, por exemplo, ficou para a história. Nunca
tinha ocorrido no país o caso de um jogador que obteve liberação
pela falta do pagamento de imagem.
A maioria dos clubes usa esse tipo de contrato para burlar a legislação
previdenciária e trabalhista, porque se paga menos impostos. Eles
colocam no contrato R$ 300 mil na imagem e R$ 30 mil na carteira de trabalho,
como era o caso do Luizão. Eu ganhei essa ação.
M&N - Este jeito de menina
e de mulher serena esconde uma mulher muito forte já que é
chamada de a "dama de ferro" do futebol. Como isso pode acontecer?
Gislaine - Eu sou uma pessoa muito tranqüila, mas fico brava quando
vejo injustiça. Numa mesa de audiência, eu lembro tudo o
que me aconteceu no passado e me transformo. Eu só não passei
necessidade financeira porque os meus pais não deixavam pois houve
uma época que o meu marido ficou cinco meses sem receber. Eu vi
muitos jogadores passarem fome porque dependiam daquele dinheiro para
sobreviver e não o recebiam. Mesmo hoje que não sou mais
advogada do sindicato, atendo gratuitamente duas vezes por semana jogadores
pouco conhecidos porque sei das dificuldades do começo de carreira.
Eu ajudo com cesta básica e até com dinheiro em alguns casos.
Quando estou em uma audiência, o juiz chega a cobrar, em alguns
casos, uma postura mais profissional da minha parte, porque percebe que
fico até doente, quando vejo um clube mentindo para defender-se
das acusações do jogador.
Sou considerada a dama de ferro, porque para os "meus meninos"
sou muito boa. O Welber do São Paulo, por exemplo, chegou aqui
sem perspectiva nenhuma e saiu do meu escritório outra pessoa,
porque lhe dei apoio. Eu disse que nós iríamos até
o clube saber por que pagaram R$ 1,5 milhão por ele e o mantinham
encostado.
O pior ditado que eu conheço é "quem espera sempre
alcança". Esse é o ditado mais ridículo que
já ouvi no mundo. Para mim, "não deu aqui, nós
vamos para um lado e para outro se não resolver". O sol nasceu
para todos, mas a sombra só para alguns.
M&N - Como é administrar
o dinheiro dos jogadores?
Gislaine - Eu fico brava quando eles gastam muito. É claro que
todo mundo quer ter um carro importado, mas recomendo que pesquisem e
vejam o momento certo para adquiri-lo. Quer ter três ou quatro peças
da Armani ótimo, mas não precisa de 12, porque existem outras
marcas que vestem tão bem quanto as mais caras.
M&N - Quando surge algum problema com um jogador o que a senhora faz
para tranqüilizá-lo?
Gislaine - Digo para levantar a cabeça e que não é
um corte ou uma lesão que vai acabar com a vida. Se ele se machucou,
foi porque estava jogando. É um risco dessa profissão. Cortado
todo mundo é. Quantos campeonatos e copas haverá pela frente.
Não dá para desistir assim tão fácil. Imagina
o Ronaldo quando teve aquela lesão, se não tivesse acreditado
que seria capaz de superar o problema.
M&N - Como a senhora consegue
administrar seu tempo para dar atenção a todos os jogadores?
Gislaine - Tenho uma equipe que cuida dos processos, mas a atenção
quem dá sou eu. Quando eu chego ao escritório, começo
a ligar para todos que precisam me ouvir. Tanto eu como a minha equipe
não têm hora para sair e nem podem desligar o celular. Férias
também eles só tiram na entressafra. Essa história
de tirar férias junto com os filhos não funciona aqui. Tenho
uma frasqueira com todos os objetos de higiene pessoal que utilizo que
me acompanha todos os dias, juntamente com uma mala com roupas básicas
com sapato preto, blusinha preta, um terno de cor básica e roupas
íntimas. Se precisar viajar agora, pego o meu passaporte e vou
na mesma hora. Gosto de deixar o meu jogador numa posição
muito cômoda.
M&N - Seu começo
de carreira foi bastante sofrido, não?
Gislaine - Eu cheguei muito pobre à capital de São Paulo,
tanto que andava com sapato furado e até dormia no chão
do sindicato. Eu chegava ao açougue e pedia que pesassem um bife
que era para o meu filho Evandro, já que eu e meu marido comíamos
no sindicato. Hoje, quando eu encosto com o meu carro (Mercedes-Benz)
naquele açougue, o atendente fala que vai me aplaudir de pé.
Faço questão de manter contato com as pessoas que me ajudaram.
M&N - De onde vêm
tanta força e eficiência no trabalho?
Gislaine - Eu só posso creditar tudo isso a Deus por todas as vitórias
que tive na vida. É impressionante lembrar que eu saí da
periferia. Passo por muitos problemas, mas quantos mais eu tiver, mais
forte ficarei. Eu recebo muitas críticas dos advogados que me chamam
da "Darlene do futebol" (em referência à personagem
da atriz Déborah Secco na novela "Celebridades", exibida
pela Rede Globo no ano passado). Eu sou muito criticada. Quando vou à
Vara do Trabalho, estou sempre com meus seguranças, porque já
fui ameaçada de morte. Eu ando com roupas da Armani hoje, porque
eu sim passei por dificuldades e as enfrentei. Devo muito ao Martorelli
pela oportunidade que me deu, porque me convidou para trabalhar no sindicato
e lá fiquei famosa.
M&N - Como é a Gislaine
mãe?
Gislaine - Nós temos uma cumplicidade muito grande. Todo mundo
na escola comenta que ele não fica esnobando que conhece ou almoçou
com algum jogador famoso, até porque se eu souber de algum resquício
que ele está empinando o nariz, nós teremos uma conversa
muito séria. Certamente cortarei muitas regalias, porque não
gosto disso.
M&N - Como está
o mercado de trabalho do advogado na sua opinião?
Gislaine - Há vagas para todos os profissionais que querem ingressar
no ramo do Direito Desportivo. O advogado que se debruçar na Lei
Pelé vai perceber que ainda existem muitas questões que
precisam ser exploradas. Houve um colega de profissão que recentemente
liberou um atleta pela falta do pagamento de um seguro por parte do clube.
Eu nunca fiz um processo desse tipo e realmente todos os clubes são
obrigados a pagar. Não é uma maravilha? Se ele continuar
com isso, com certeza, vai varrer os clubes porque a maioria não
tem. A única recomendação que faço é
que quem deseja entrar nessa área que se apresse. Até porque,
em breve, conseguir a liberação de um jogador ou procurar
a Justiça do Trabalho para reivindicar os direitos dos jogadores
vai começar a ficar um pouco minguado. Com certeza, de tanto apanhar,
os clubes estão ficando espertos, e isso pode acabar.
M&N - Há algum projeto
na sua vida que ainda não realizou?
Gislaine - O meu sonho sempre foi ter um programa de televisão,
e isso já está sendo encaminhado. Vou estrear na tevê
em breve com um programa sobre a intimidade da vida do jogador. Eu vou
até a casa deles para bater papo, eles vão cozinhar para
mim e vamos falar de muitas intimidades que talvez eles não revelassem
para ninguém. Quem vai me dirigir é a Marlene Matos (ex-empresária
da apresentadora Xuxa Meneguel). Outro projeto que tenho em mente é
voltar para minha cidade, quando estiver velhinha.
M&N - O que a senhora tem
a falar sobre a sua profissão?
Gislaine - É muito mais gratificante ser advogada. É mais
até do que ser juiz ou promotor, porque nós, sim, movimentamos
a máquina judiciária. É o advogado que anda de balcão
em balcão e corre contra o tempo por causa dos prazos processuais.
Por isso, tenho muito orgulho de ser advogada.
Quando chego em Portugal ou na Espanha, faço questão de
dizer que sou advogada brasileira.