GISLAINE NUNES - A ESTRELA DO DIREITO DESPORTIVO

A advogada Gislaine Nunes é a única mulher que consegue dar um cartão vermelho aos dirigentes dos clubes de futebol. Conhecida por defender os atletas do esporte preferido dos brasileiros, o futebol, a advogada atua em processos, muitas vezes com altas indenizações, que envolvem o pagamento de salários, depósitos do fundo de garantia, quebra de contrato, afastamento indevido de jogadores. Apesar de ingressar na profissão "quase sem querer", já que deixou o diploma que conquistou no Instituto Toledo de Ensino (ITE) na gaveta durante seis anos para viver, o que ela mesma definiu, de "seu conto de fadas de ser mulher de jogador de futebol", Gislaine é hoje aclamada como uma das advogadas mais respeitadas do Direito Desportivo e também a mais bem paga, tanto que sua fama já ultrapassou fronteiras. Em 2001, a BBC de Londres reconheceu a sua atuação profissional realizando um documentário sobre a sua vida, na qual a chamaram de Nabuco do futebol brasileiro, em alusão a Joaquim Nabuco que liderou a campanha pelo fim da escravidão. A advogada também já foi personagem de matérias em revistas de vários países da Europa e constantemente é consultada pelas principais redes de televisão do país para falar sobre seus atletas, tratados carinhosamente por ela, de "meus meninos". Para ela, o mais importante da vida "é ir atrás de seu sonho, mesmo que os obstáculos pareçam impossíveis de ser ultrapassados".

M&N - Como começou a sua carreira?
Gislaine - Fiz o curso de Direito no Instituição Toledo de Ensino (ITE) mas, como era casada com um jogador de futebol, o Evandro Nunes, resolvi não advogar e viver o meu conto de fadas. Somente quando o meu marido foi para a Ponte Preta e precisou contratar um advogado para conseguir receber o seu pagamento, é que comecei a pensar em atuar. Na época, percebi que o processo não caminhava e perguntei o motivo para o advogado e soube que era porque a ação deveria tramitar na Justiça Desportiva. Quando o Evandro foi para outro clube e teve novamente problemas, pedi para deixar-me cuidar do processo, porque iria conduzi-lo de forma diferente. O problema da Justiça Desportiva é que, apesar de todos os jogadores ganharem nas ações, ela não tem força executiva da sentença. Depois de tanta insistência, ele deixou e eu entrei com a ação na Justiça do Trabalho. Afinal de contas, ele era um trabalhador como outro qualquer, já que tinha carteira profissional e se encaixava perfeitamente no Artigo 3º da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT): onerosidade, habitualidade, pontualidade. Com isso, eu consegui penhorar os bens do clube e meu marido recebeu o que lhe era devido.

M&N - E a fama de defensora dos jogadores, como começou?
Gislaine - Quando ganhei o processo do meu marido, vários jogadores ficaram sabendo. Nessa época, eu era conhecida apenas como a "mulher do lateral". Daí, o presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais do Estado de São Paulo, Rinaldo José Martorelli, me chamou para cuidar de um processo dele, ganhei e fui convidada para trabalhar lá. Um ano depois, nasceu a Lei Pelé que eu sempre digo que foi feita para mim. Eu a mastiguei, triturei e fiz a minha vida em cima dela.

M&N - Qual a sua opinião sobre a Lei Pelé?
Gislaine - Eu só tenho que falar bem dessa lei. Ela foi o maior presente que o legislador poderia dar aos atletas. A Justiça do Trabalho foi muito mãe dos jogadores. Sem ela agasalhando tudo aquilo que nós pedíamos, punindo os clubes corretamente para que sentissem o peso da desobediência à lei, nada teríamos conseguido. Eu não posso criticar o bilhete premiado que eu e meus atletas ganhamos.

M&N - Quantos jogadores o seu escritório assessora atualmente?
Gislaine - Hoje tenho em mãos mais de 400 processos em tramitação, mas todo dia entra um novo. Entre os atletas que atendo estão, Juninho Pernambucano e o Paulista, Gamarra, Luizão, Luiz Mário, Maldonado, Athirson, Ricardo Oliveira, Rogério Ceni.

M&N - A senhora abriu uma empresa de marketing para cuidar da imagem dos jogadores, como é esse trabalho?
Gislaine - Com base em um curso que fiz na Europa sobre a construção da imagem de um jogador de futebol, comecei a ensinar aos jogadores que o maior investimento que devem fazer é com eles. Tudo que envolva a imagem dos atletas eu assessoro. Vou ao cabeleireiro com eles, em lojas, escolho perfume porque quero vê-los sempre bem vestidos e cheirosos. Tenho uma professora de inglês que dá aula para eles gratuitamente aonde quiserem porque eles têm que falar outra língua. Também invisto na leitura dando assinatura de revista e livros para lermos juntos. Enfim, sou uma mãe para eles.

M&N - O seu escritório atua em todas as áreas do Direito?
Gislaine - Tudo o que o jogador precisar eu faço, mas de forma terceirizada porque a equipe do escritório atua somente na área do Direito Desportivo. Principalmente na parte tributária que é mais complexa, contrato uma equipe para auxiliá-los. É claro que não preciso terceirizar, por exemplo, uma investigação de paternidade ou uma separação, porque isso é o "abc" da advocacia.

M&N - Como a senhora orienta os jogadores a lidar com as chamadas "Marias chuteiras"?
Gislaine - A revista “Veja” publicou uma matéria dizendo que eu distribuo camisinha aos jogadores, mas não é bem assim. Apenas digo que eles usem o preservativo. Com alguns que tenho mais intimidade, antes de saírem para uma festa, pergunto se têm camisinha e, se percebo que não a têm, mando buscar. Sempre oriento todos eles para não se envolverem com esse tipo de mulher que está preparada para buscar um filho de um jogador milionário, para evitar problemas futuros. Caso aconteça, peço um exame de DNA.

M&N - É difícil administrar a vida dos jogadores? Eles questionam muito as suas atitudes?
Gislaine - Eles têm muita confiança no que digo. Às vezes ligo para um atleta que nunca esteve no meu escritório e ele já sabe quem eu sou. Outro dia meu pai estava ouvindo a rádio Globo e, no intervalo de uma partida de futebol, um jogador saiu do campo e disse que estava muito bravo por não receber salário e que iria ligar para mim. E olha que eu nem o conhecia. Meu nome virou sinônimo de buscar os direitos deles que estão obscuros e de brigar com os dirigentes dos clubes.
O Fábio Costa e o Welber estavam afastados, fui com os dois em um programa na televisão Bandeirantes e disse que os clubes estavam correndo risco jurídico, porque é possível tirar os dois tranqüilamente do clube, primeiro porque era discriminação deixá-los afastados e segundo por que, se não jogam, sofrem uma redução salarial, porque não ganham o bicho, o que me permitiria fazer uma rescisão por justa causa. No dia seguinte, os dois foram reintegrados ao time.
O caso do Luizão, por exemplo, ficou para a história. Nunca tinha ocorrido no país o caso de um jogador que obteve liberação pela falta do pagamento de imagem.
A maioria dos clubes usa esse tipo de contrato para burlar a legislação previdenciária e trabalhista, porque se paga menos impostos. Eles colocam no contrato R$ 300 mil na imagem e R$ 30 mil na carteira de trabalho, como era o caso do Luizão. Eu ganhei essa ação.

M&N - Este jeito de menina e de mulher serena esconde uma mulher muito forte já que é chamada de a "dama de ferro" do futebol. Como isso pode acontecer?
Gislaine - Eu sou uma pessoa muito tranqüila, mas fico brava quando vejo injustiça. Numa mesa de audiência, eu lembro tudo o que me aconteceu no passado e me transformo. Eu só não passei necessidade financeira porque os meus pais não deixavam pois houve uma época que o meu marido ficou cinco meses sem receber. Eu vi muitos jogadores passarem fome porque dependiam daquele dinheiro para sobreviver e não o recebiam. Mesmo hoje que não sou mais advogada do sindicato, atendo gratuitamente duas vezes por semana jogadores pouco conhecidos porque sei das dificuldades do começo de carreira. Eu ajudo com cesta básica e até com dinheiro em alguns casos.
Quando estou em uma audiência, o juiz chega a cobrar, em alguns casos, uma postura mais profissional da minha parte, porque percebe que fico até doente, quando vejo um clube mentindo para defender-se das acusações do jogador.
Sou considerada a dama de ferro, porque para os "meus meninos" sou muito boa. O Welber do São Paulo, por exemplo, chegou aqui sem perspectiva nenhuma e saiu do meu escritório outra pessoa, porque lhe dei apoio. Eu disse que nós iríamos até o clube saber por que pagaram R$ 1,5 milhão por ele e o mantinham encostado.
O pior ditado que eu conheço é "quem espera sempre alcança". Esse é o ditado mais ridículo que já ouvi no mundo. Para mim, "não deu aqui, nós vamos para um lado e para outro se não resolver". O sol nasceu para todos, mas a sombra só para alguns.

M&N - Como é administrar o dinheiro dos jogadores?
Gislaine - Eu fico brava quando eles gastam muito. É claro que todo mundo quer ter um carro importado, mas recomendo que pesquisem e vejam o momento certo para adquiri-lo. Quer ter três ou quatro peças da Armani ótimo, mas não precisa de 12, porque existem outras marcas que vestem tão bem quanto as mais caras.
M&N - Quando surge algum problema com um jogador o que a senhora faz para tranqüilizá-lo?
Gislaine - Digo para levantar a cabeça e que não é um corte ou uma lesão que vai acabar com a vida. Se ele se machucou, foi porque estava jogando. É um risco dessa profissão. Cortado todo mundo é. Quantos campeonatos e copas haverá pela frente. Não dá para desistir assim tão fácil. Imagina o Ronaldo quando teve aquela lesão, se não tivesse acreditado que seria capaz de superar o problema.

M&N - Como a senhora consegue administrar seu tempo para dar atenção a todos os jogadores?
Gislaine - Tenho uma equipe que cuida dos processos, mas a atenção quem dá sou eu. Quando eu chego ao escritório, começo a ligar para todos que precisam me ouvir. Tanto eu como a minha equipe não têm hora para sair e nem podem desligar o celular. Férias também eles só tiram na entressafra. Essa história de tirar férias junto com os filhos não funciona aqui. Tenho uma frasqueira com todos os objetos de higiene pessoal que utilizo que me acompanha todos os dias, juntamente com uma mala com roupas básicas com sapato preto, blusinha preta, um terno de cor básica e roupas íntimas. Se precisar viajar agora, pego o meu passaporte e vou na mesma hora. Gosto de deixar o meu jogador numa posição muito cômoda.

M&N - Seu começo de carreira foi bastante sofrido, não?
Gislaine - Eu cheguei muito pobre à capital de São Paulo, tanto que andava com sapato furado e até dormia no chão do sindicato. Eu chegava ao açougue e pedia que pesassem um bife que era para o meu filho Evandro, já que eu e meu marido comíamos no sindicato. Hoje, quando eu encosto com o meu carro (Mercedes-Benz) naquele açougue, o atendente fala que vai me aplaudir de pé. Faço questão de manter contato com as pessoas que me ajudaram.

M&N - De onde vêm tanta força e eficiência no trabalho?
Gislaine - Eu só posso creditar tudo isso a Deus por todas as vitórias que tive na vida. É impressionante lembrar que eu saí da periferia. Passo por muitos problemas, mas quantos mais eu tiver, mais forte ficarei. Eu recebo muitas críticas dos advogados que me chamam da "Darlene do futebol" (em referência à personagem da atriz Déborah Secco na novela "Celebridades", exibida pela Rede Globo no ano passado). Eu sou muito criticada. Quando vou à Vara do Trabalho, estou sempre com meus seguranças, porque já fui ameaçada de morte. Eu ando com roupas da Armani hoje, porque eu sim passei por dificuldades e as enfrentei. Devo muito ao Martorelli pela oportunidade que me deu, porque me convidou para trabalhar no sindicato e lá fiquei famosa.

M&N - Como é a Gislaine mãe?
Gislaine - Nós temos uma cumplicidade muito grande. Todo mundo na escola comenta que ele não fica esnobando que conhece ou almoçou com algum jogador famoso, até porque se eu souber de algum resquício que ele está empinando o nariz, nós teremos uma conversa muito séria. Certamente cortarei muitas regalias, porque não gosto disso.

M&N - Como está o mercado de trabalho do advogado na sua opinião?
Gislaine - Há vagas para todos os profissionais que querem ingressar no ramo do Direito Desportivo. O advogado que se debruçar na Lei Pelé vai perceber que ainda existem muitas questões que precisam ser exploradas. Houve um colega de profissão que recentemente liberou um atleta pela falta do pagamento de um seguro por parte do clube. Eu nunca fiz um processo desse tipo e realmente todos os clubes são obrigados a pagar. Não é uma maravilha? Se ele continuar com isso, com certeza, vai varrer os clubes porque a maioria não tem. A única recomendação que faço é que quem deseja entrar nessa área que se apresse. Até porque, em breve, conseguir a liberação de um jogador ou procurar a Justiça do Trabalho para reivindicar os direitos dos jogadores vai começar a ficar um pouco minguado. Com certeza, de tanto apanhar, os clubes estão ficando espertos, e isso pode acabar.

M&N - Há algum projeto na sua vida que ainda não realizou?
Gislaine - O meu sonho sempre foi ter um programa de televisão, e isso já está sendo encaminhado. Vou estrear na tevê em breve com um programa sobre a intimidade da vida do jogador. Eu vou até a casa deles para bater papo, eles vão cozinhar para mim e vamos falar de muitas intimidades que talvez eles não revelassem para ninguém. Quem vai me dirigir é a Marlene Matos (ex-empresária da apresentadora Xuxa Meneguel). Outro projeto que tenho em mente é voltar para minha cidade, quando estiver velhinha.

M&N - O que a senhora tem a falar sobre a sua profissão?
Gislaine - É muito mais gratificante ser advogada. É mais até do que ser juiz ou promotor, porque nós, sim, movimentamos a máquina judiciária. É o advogado que anda de balcão em balcão e corre contra o tempo por causa dos prazos processuais. Por isso, tenho muito orgulho de ser advogada.
Quando chego em Portugal ou na Espanha, faço questão de dizer que sou advogada brasileira.