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A
REVOLUÇÃO DOS ESCRITÓRIOS
Por Lara Selem e Rodrigo Bertozzi
M&N - Fale-nos sobre sua carreira como administrador legal.
Richard - Atuo como administrador legal há pouco mais de 20 anos.
Esse ano, celebrei meu 18º aniversário como administrador do
escritório de advocacia Robins, Kaplan, Miller & Ciresi L.L.P.,
sediado em Minneapolis (Minnesota, EUA). Nosso escritório possui
seis unidades, todas nos Estados Unidos.
Minha formação é em Contabilidade e Finanças,
sou Contador Público Certificado (CPA, 1975) e Administrador Legal
Certificado (CLM, 2000). Quando comecei minha carreira na administração
legal, há 20 anos, os administradores legais não tinham atingido
o status de que gozam hoje. Eu era tratado como um empregado e era considerado
como parte da equipe de administração e de suporte. Eu não
participava das reuniões de conselho e era raramente incluído
em eventos de sócios, mesmo assim numa base bastante limitada. Pelo
fato de não ser advogado, não posso legalmente ser sócio
da banca onde trabalho. Essa é a lei que vigora em nosso estado.
Sou um executivo do escritório e hoje, sou tratado como um sócio
em quase todos os aspectos. Participo de todas as reuniões de sócios
e do Conselho Executivo do escritório.
M&N - Em que estágio de desenvolvimento está o mercado
americano da Administração Legal? Quando esse movimento começou?
Richard - O mercado da Administração Legal na América
está-se aproximando de sua idade média. Já é
uma prática aceita que escritórios de advocacia com dez ou
mais advogados tenham um administrador legal. Ademais, a presença
de gerentes altamente profissionais em áreas funcionais, como Contabilidade,
Recursos Humanos e Tecnologia é bastante comum em escritórios
de porte médio e estão presentes em todos os de grande porte.
A prática de ter um administrador legal iniciou no final da década
de 60 e início da de 70. Como mais acadêmicos se graduavam
nas escolas de Direito, os escritórios de advocacia se tornaram maiores,
e a competição se tornou mais acirrada durante as décadas
de 80 e 90, fazendo a prática de ter um profissional não-advogado
na gestão do escritório consolidar-se. O crescimento de demandas
pelos clientes e a pressão interna para que todos os advogados se
tornassem mais produtivos levou o “negócio” da advocacia
a tornar-se mais complicado.
Em virtude de a maioria dos advogados ter pouca ou nenhuma educação
relacionada à administração, faz sentido para eles
deixarem que profissionais treinados nessa área gerenciem a parte
empresarial da banca. A profissão do administrador legal requer agora
indivíduos com mais conhecimento e mais preparados e experientes
do que víamos no passado.
M&N - Quais são
as prioridades administrativas em um escritório de advocacia?
Richard - As prioridades administrativas em um escritório de advocacia
estão centradas em torno de duas áreas principais: serviço
e lucratividade. É função do administrador legal
garantir que um alto nível de serviço seja oferecido aos
sócios, associados e demais pessoas que faturem em um escritório
de advocacia. Isso precisa ser feito de uma forma que mantenha a equipe
feliz e a um custo eficiente. As áreas principais de foco são
tecnologia, recursos humanos e benefícios, contabilidade e finanças,
incluindo orçamento e sua análise, marketing, e desenvolvimento
e treinamento profissional.
M&N - Quais são
as tendências do mercado jurídico norte-americano? Como os
escritórios de advocacia estão-se preparando para o futuro?
Richard - Estamos vivendo uma certa crise de identidade no mercado jurídico
norte-americano. Os escritórios estão sendo forçados
a decidir que tipo de banca querem ser.
Eles querem-se tornar parte de um grande (ou até mega) escritório
de advocacia que ofereça um leque enorme de serviços jurídicos
a seus clientes, ou desejam ser menores e especializar-se em determinada
área de atuação jurídica? Fusões e
incorporações de escritórios de advocacia continuam
a acontecer. Já não há mais tantas bancas de médio
porte como antes. Os escritórios estão-se tornando ou muito
grandes ou muito pequenos. É bom ter em mente, entretanto, que
os conceitos de grande e pequeno são relativos ao mercado físico
onde eles estão localizados. Por exemplo, um grande escritório
em Mobile, Alabama, pode ser uma pequena banca em New York ou Los Angeles.
Advogados hoje têm muito mais mobilidade do que antes. Há
vinte ou trinta anos, um advogado que iniciava em um escritório
de advocacia esperava tornar-se sócio dele e dedicar toda sua carreira
jurídica a uma única banca.
Hoje, isso é bastante incomum. Muitos dos jovens advogados olham
para seus primeiros anos numa banca como um degrau para o próximo
passo na sua carreira.
Muitos escritórios de advocacia, tanto grandes como pequenos, estão
olhando para seus “negócios” mais globalmente. Os escritórios
de grande e médio porte raramente atuam apenas em sua sede, estado
ou apenas nos EUA. Muitos atuam internacionalmente e possuem escritórios
fora do país.
Os clientes estão-se tornando juridicamente mais sofisticados.
Muitos têm um departamento jurídico interno com advogados
que já trabalharam em escritórios de advocacia e compreendem
como eles trabalham. O cliente demanda mais trabalho a ser feito em menos
tempo por custo igual ou menor. Isso tem levado muitas bancas a serem
mais criativas na forma como lidam com os casos e cobram seus clientes.
Embora os honorários por hora ainda prevaleçam, arranjos
alternativos incluindo honorários de contingência, descontos,
bônus por “performance” e honorários mistos estão-se
tornando uma prática mais aceita.
Muitos escritórios, mais do que nunca, estão-se preparando
para o futuro por intermédio da participação em iniciativas
de planejamento estratégico. Alguns estão contratando consultores
externos para assisti-los nesse processo, e outros estão trabalhando
em sigilo. Os administradores legais estão participando desse processo
com os sócios administradores e os comitês executivos das
bancas. Muitos escritórios de advocacia também querem e
recebem sugestões e dividem informações e resultados
com todos os sócios, associados e equipe administrativa. Participar
de seminários e conferências assim como ler publicações
do mercado são muito importantes para manter a administração
do escritório atualizado sobre os acontecimentos atuais e tendências
do mercado jurídico.
M&N - Quais os requisitos
e conhecimentos precisa ter um excelente administrador legal para liderar
a gestão de um escritório de advocacia?
Richard - Um administrador legal eficaz deve ter conhecimento em muitas
áreas incluindo finanças, instalações, seguros,
recursos humanos, tecnologia e o mercado jurídico. Esse conhecimento
pode ser adquirido por meio de treinamento ou experiência e, para
muitos administradores legais, pela combinação de ambos.
O administrador legal eficaz deve ser preocupado com as pessoas e ser
carismático. Deve ser capaz de interagir efetivamente com advogados
com grandes egos tão bem como com gerentes e equipe administrativa
de todos os níveis. Deve ser um bom comunicador, assim como um
bom ouvinte.
Um bom administrador legal deve ser capaz de entregar excelente serviço
aos seus clientes, os advogados. Ele deve ser capaz de liderar sua equipe
através do exemplo. Um administrador legal eficaz deve ser um bom
professor e, também, um bom aluno.
O ambiente jurídico está sempre em grande mudança
e seria bom o administrador manter-se atualizado sobre essas mudanças
por meio da participação em conferências, relacionamento
com seus companheiros administradores de outras organizações
e usar uma boa parte de seu tempo lendo e estudando sobre o mercado jurídico.
Diferentemente do que ocorria no passado, muitos administradores legais
hoje não cresceram no mercado da advocacia. Eles adquiriram experiência
em uma variedade de outros segmentos e encontraram os escritórios
de advocacia já no meio de suas carreiras. Essa experiência
é muito válida às bancas.
Muitos sócios administradores não foram treinados em como
gerenciar um negócio e precisam dos administradores legais para
assisti-los nessa tarefa.
Nos primeiros anos da profissão de administrador legal, muitos
foram promovidos de dentro da própria banca, especialmente nas
de pequeno porte. Secretárias de sócios administradores
ou paralegais foram promovidos à posição de “gerente
do escritório”. Esste foi um caminho muito difícil
para esses indivíduos. Em muitos casos, eles entendiam da cultura
do escritório, mas não tinham experiência ou conhecimento
de gerenciamento de um negócio. Isso ainda ocorre hoje, mas não
com tanta freqüência.
Muitos escritórios de advocacia, mesmo os menores, hoje vão
ao mercado para encontrar o seu administrador legal. Em virtude disso,
estamos vendo níveis mais altos de capacitação entre
os administradores.
Muitos agora têm graduação universitária, MBAs
e outros títulos e diplomas.
M&N - Na sua opinião,
que percentual do lucro é recomendável para ser investido
no treinamento e desenvolvimento de uma equipe jurídica?
Richard - Essa é uma questão difícil! Meu escritório
não é muito diferente dos demais, e nós gastamos
cerca de 1,4% do lucro no desenvolvimento e treinamento profissional.
A minha sensação é que essa percentagem tem crescido
consistentemente nos últimos anos. Estou vendo mais escritórios
médios e grandes (o meu incluído) que estão contratando
coordenadores de desenvolvimento e treinamento profissional, cuja função
é coordenar os esforços educacionais do escritório
e assegurar que advogados e pessoal administrativo e de apoio estão
atualizados em sua educação profissional e no treinamento
sobre como os sistemas e processos no escritório funcionam. A Associação
de Administradores Legais (ALA) desenvolveu o “Currículo
de Habilidades de Negócios para Advogados” que está
se tornando popular nos escritórios de advocacia. Ele ensina a
advogados muitos aspectos de negócios relativos à prática
da advocacia.
Em virtude de a competição na prática jurídica
ter crescido muito na última década e pelo fato de os clientes
estarem-se tornando consumidores mais sofisticados (de serviços
legais), educação e treinamento têm sido mais requeridas
agora do que já foram antes. Em minha opinião, o percentual
do lucro a ser investido nessa área continuará a crescer
vagarosamente, nos próximos anos.
M&N - Quais são
os principais problemas enfrentados pelo administrador legal em um escritório
de advocacia?
Richard - Há vários desafios consideráveis que o
administrador legal enfrenta. É esperado que ele seja um "expert"
em muitas áreas.
Ele supervisiona muitos projetos acontecendo ao mesmo tempo. A gestão
do tempo parece ser um problema comum entre os administradores. Isso é
ampliado pelo grau de mudança que ocorre na tecnologia e outras
áreas da gestão de escritório de advocacia. Parece
que o administrador é consistentemente solicitado a fazer mais
com os mesmos recursos ou até com menos.
O administrador é a conexão entre a equipe administrativa
e os advogados. Ele deve ser capaz de administrar conflitos e freqüentemente
deve agir como mediador.
Como eu disse antes, a profissão da administração
legal é muito comum em escritórios de advocacia nos Estados
Unidos. Entretanto, ela é ainda muito jovem e não está
madura o suficiente para ser valorizada nos níveis que deveria
ser.
Muitos administradores legais, especialmente nos escritórios menores
sentem-se desvalorizados e depreciados. Em minha opinião, isso
vai mudar com o tempo.
Outro desafio que muitos administradores enfrentam é a resistência
às mudanças nos seus escritórios. Bons administradores,
especialmente aqueles que não nasceram no mercado jurídico,
e aqueles que fazem um bom trabalho se mantendo atualizados com as tendências
de negócios sempre experimentam um alto grau de frustração
porque suas bancas são lentas em fazer mudanças em seus
sistemas e atitudes.
Geralmente leva muito tempo para que os escritórios de advocacia
tomem decisões de negócios.
M&N - Quais são
os riscos e oportunidades na globalização do mercado jurídico?
Richard - A globalização do mercado jurídico criou
e continuará criando muitas oportunidades significativas para os
advogados ao redor do mundo. Temos assistido a muitas fusões, aquisições
e afiliações internacionais, à medida que a comunidade
jurídica se tornou mais global. Em minha opinião, essa tendência
será acelerada nos próximos anos. Penso que os advogados
que sejam bilíngües e que desejem realocar-se em um outro
país terão muito mais oportunidades no futuro.
Essa tendência não vem sem riscos, no entanto. O desafio
básico a ser enfrentado pelos escritórios de advocacia é
a cultura. As diferenças de cultura, incluindo costumes, práticas
de negócios e ética no trabalho entre advogados e clientes,
em diversos países, têm o potencial de criar conflitos dentro
das bancas. Os escritórios devem focar em compreender essas diferenças
e aprender como lidar com elas internamente.
M&N -
Qual a dica para os advogados e administradores legais brasileiros?
Richard - Aos advogados brasileiros aconselho que confiem em sua equipe
administrativa e a valorizem. Sejam abertos aos conceitos da administração
legal profissional. Levou muitos anos nos Estados Unidos para que os profissionais
do Direito reconhecessem a importância de ter não-advogados
auxiliando na gestão dos escritórios de advocacia. Aprendam
com os nossos erros. Para os administradores legais aconselho que trabalhem
continuamente para melhorarem a si mesmos. Tenham aulas, estudem, assistam
a conferências e a palestras, troquem idéias com seus pares
e leiam.
O fator mais importante que você pode fazer para aumentar seu valor
no escritório é continuar aprendendo e manter-se atualizado.
Esteja em uma missão constante de tornar-se melhor. Quando você
pára de aprender, você pára de crescer!
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