
Por Márcia Rodrigues
- SP
Advocacia Privada
ou Concurso Público?
Várias são
as dúvidas do bacharel em Direito sobre qual a melhor carreira
a ser seguida ao concluir a faculdade. Além de um impasse causado
sobre qual a disciplina que mais lhe agrada dentre tantas expostas ao
longo dos cinco anos de curso, outra grande encruzilhada é colocada
em sua vida para ser ultrapassada: qual o setor que vai merecer seus
anos de estudos se é o privado ou o público? Para muitos
especialistas, o que pesa nesta hora, até mesmo mais do que a
vocação profissional, é a estabilidade econômica
proporcionada ao advogado que exerce o cargo público, já
que terá uma renda mensal fixa, independente do volume de pessoas
que atender. Para outros, nada supera a liberdade de correr o risco
de poder traçar seu próprio futuro, sendo financeira ou
profissionalmente, proporcionada pela carreira privada.
A questão de optar ou não pelo setor público é
realmente muito mais complexa do que se imagina, na opinião do
secretário-geral do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do
Brasil (OAB) Cezar Britto. Para ele, não dá para desconsiderar
a vocação profissional na hora da escolha, mas a comodidade
também é um ponto muito favorável ao setor publico,
já que atualmente existem aproximadamente 500 mil advogados inscritos
na OAB e o mesmo volume de estudantes matriculados nas faculdades de
Direito do País. "Vários são os motivos que
levam o bacharel a pensar em qual setor terá mais segurança
para desempenhar sua carreira. A criação dos juizados
especiais, por exemplo, reduziu a área de atuação
do advogado do setor privado. Tem também a Defensoria Pública
e as ações coletivas ajuizadas pelo Ministério
Público que restringem também o campo de atuação",
comenta.
Britto critica o aumento desordenado de cursos de direito sem qualquer
preocupação com a qualidade do ensino. Só para
exemplificar, ele cita que mais de 300 instituições de
ensino estão próximas do chamado acesso universal, ou
seja, tem mais ofertas de vagas do que candidatos. "Ora, se a qualidade
do ensino é desestimulante, parte dos estudantes busca outras
opções profissionais, sob pena de comprometer sua sobrevivência",
diz.
Mesmo assim, Britto é otimista com o campo de trabalho do advogado
privado. De acordo com ele, há ainda muito para explorar-se e
expandir-se no ramo do Direito. Uma das áreas em expansão,
segundo o advogado, é o direito ambiental, pois a sociedade já
não admite de forma passiva a destruição do planeta.
"Também tem- se percebido um crescimento na área
ligada ao Terceiro Setor, especialmente depois que a Organização
das Nações Unidas (ONU) e a classe empresarial compreenderam
que a tarefa de construção de uma sociedade mais justa
e solidária não mais compete exclusivamente ao Estado",
afirma. Outra área que vem sendo ampliada é a tributária,
"especialmente para conter a fome-leoa do próprio Estado",
além do setor de tecnologia, fusões e aquisições,
Direito econômico empresarial e biogenética.
Para Britto, o advogado é, sem dúvida, o primeiro a interpretar
a sociedade em busca da Justiça, e não há nada
mais atraente do que essa nobre, espinhosa e importante função.
"Como advogado que atua exclusivamente no campo das relações
privadas, há mais de 20 anos, não posso deixar de registrar,
sem querer ser imparcial, que é neste ramo que a advocacia melhor
floresce. Não apenas pelos vários ramos de atuação
(civil, penal, trabalhista, sindical, tributário, empresarial
e ambiental, dentre outros), mas, sobretudo, por permitir ser o porta-voz
direto da sociedade em suas lutas e reivindicações".
Apesar da a estabilidade financeira ser importante para qualquer carreira,
o secretário-geral da OAB acredita que a escolha de uma profissão
nunca deve ser formulada pelo critério econômico, sob pena
de gerar uma futura e previsível infelicidade. "Se a escolha
recair no campo da advocacia, aconselho o profissional a procurar a
área que seja mais adequada à sua personalidade e à
sua compreensão de mundo. Talvez esse seja o maior charme da
advocacia já que é possível casar a profissão
com a visão do interessado. Se o profissional tem uma veia social,
pode atuar no campo do direito coletivo, do direito ambiental, nas questões
agrárias, na assessoria ao Terceiro Setor. Pode-se dedicar ao
ramo empresarial, ao direito tributário, penal e quaisquer outros
que simbolize a defesa da sociedade. Somente não deve fazer opção
por motivo econômico, pois a advocacia não é atividade
mercantil", acrescenta.
Vida pública - Mesmo com as dificuldades de conquistar-se o cargo
de Procurador da República, já que é realizado
apenas um concurso por ano, o presidente da Associação
dos Procuradores da Republica, Nicolau Dino, acredita que a estabilidade
financeira - um profissional desta área inicia sua carreira com
um salário de R$ 10 mil - é um dos grandes atrativos para
o bacharel em Direito. No entanto, ele acredita que esse não
é o único motivo que leva cerca de 12.334 bacharéis
a almejarem a profissão, inscrevendo-se nos concursos. "O
que atrai mesmo o bacharel é sobre tudo o ideal de transformar
a sociedade e contribuir para a correção de suas imperfeições",
comenta. Mas, conseguir essa proeza não é nada fácil.
Apenas 230 novas vagas são disponibilizadas por ano. O quadro
de profissionais também é pequeno, já que atualmente
o Brasil conta com 443 procuradores da República, 61 subprocuradores-gerais
e 203 procuradores regionais. "O elevado grau de dificuldade do
concurso decorre da própria responsabilidade da carreira porque
é preciso ter uma visão macro dos conflitos que cercam
a sociedade. Por isso, o aprimoramento técnico de profissional
é de suma importância", justifica.
Outro setor público no qual o bacharel também enfrenta
dificuldades para ingressar é o da Magistratura. De acordo com
o diretor da Escola Nacional de Magistratura, órgão da
Associação dos Magistrados Brasileiros, desembargador
Luis Felipe Salomão, mesmo com o número insuficiente de
juizes para a demanda de trabalho, a quantidade de concursos públicos
para o ingresso de novos profissionais é muito pequena. "Com
certeza, ainda temos 30% de cargos para preencher que continuarão
vagos devido à falta de verba do Poder Judiciário e de
concursos". Atualmente, existem 15 mil juizes no Brasil, incluindo
os 30% que já estão aposentados. Outra agravante, além
dos poucos concursos disponibilizados no mercado, é a dificuldade
de se conseguir um resultado satisfatório para ingressar na magistratura.
"Precisei estudar durante um ano para ser aprovado no concurso
e ingressar na carreira pública. O bacharel que deseja essa profissão
deve ter em mente que precisa abdicar de um monte de outras atividades
para conquistar seus objetivos. Além do embasamento jurídico,
é preciso ter uma formação humanística muito
aguçada, já que trabalhamos com seres humanos", acrescenta.
A estabilidade econômica também é apontada como
o grande motivo para os bacharéis em Direito seguirem a carreira
de Procurador do Estado, na opinião do presidente da Associação
dos Procuradores do Estado de São Paulo, José Damião
de Lima Trindade. Mesmo reconhecendo que há uma estagnação
de crescimento financeiro e profissional na carreira pública,
afinal existe um topo limite no qual se pode chegar, Trindade acredita
que a estabilidade de receber um salário e aposentadoria garantidos
atrai muitos bacharéis. "Um procurador começa na
carreira pública com um salário bruto de R$ 4 mil e termina
sua carreira com o teto de R$ 17.250 sem contar os bônus por tempo
de profissão, oferecida aos profissionais assalariados",
comenta.
Atualmente o Brasil conta com 4,5 mil procuradores. Só o Estado
de São Paulo tem 930 em atividade. Nos últimos 10 anos,
foram realizados apenas três concursos públicos, nos quais
foram abrigados apenas 120 novos profissionais. Mesmo com a pouca oportunidade
oferecida pela carreira pública, Trindade acredita que vale a
pena insistir. "Não é só o advogado que contribui
para a defesa da sociedade. É muito gratificante saber que podemos
atuar em vários casos de interesse coletivo e contribuir para
um mundo melhor.”
A vocação
fala mais alto
Mesmo tentado a ingressar na Promotoria Pública por causa da estabilidade
oferecida, como sempre afirmaram alguns de seus professores da faculdade,
o advogado Luiz Henrique Rodrigues Gil não conseguiu conter a sua
admiração pelo Direito do Trabalho. Um dos motivos mais
fortes, acredita ele, foi o fato de seu avô, o juiz classista aposentado,
Daniel Rodrigues Gil, sempre falar de sua realização em
defender os trabalhadores nas audiências. "Ouvia meu avô
falando de suas defesas e das consultas que involuntariamente dava no
portão de sua casa aos vizinhos que procuravam seu auxilio para
resolver algum problema e vi que esta era a minha verdadeira vocação",
afirma. Segundo Rodrigues Gil, apesar de o começo da carreira não
ser nada fácil, é muito compensador saber que você
está contribuindo sensivelmente para a democratização
da Justiça. "É gratificante saber que um trabalhador
obteve seus direitos porque fez a lei ser aplicada e desempenhou bem o
seu papel", ressalta.
O começo é
difícil, mas a realização profissional é muito
mais satisfatória
O advogado Carlos
Frederico Reina Coutinho pode ser considerado um exemplo de sucesso da
Advocacia. Apesar de atuar como auxiliar de juiz nos dois últimos
anos da faculdade, no mês da formatura pediu a exoneração
do cargo para instituir um escritório com dois amigos. Esta decisão,
segundo ele, foi muito fácil na época, apesar de não
contar com nenhuma ajuda financeira dos pais nem o apoio profissional,
já que ninguém na família advoga, porque sabia que
era a Advocacia que realmente o fascinava. "Não vou negar
que os dois primeiros anos foram uma barra e que cheguei a arrepender-me
de abandonar a carreira pública por causa das dificuldades por
que passamos no escritório. Muitos me diziam que eu estava trocando
a estabilidade da carreira pública por um tiro no escuro. Mas hoje
vejo que o meu instinto estava certo e que posso considerar-me uma pessoa
realizada", descreve.
Hoje, nove anos depois do início na carreira privada, o escritório
Coutinho, Mota e Vinhoti Advogados Associados conta com uma sede própria,
atende grandes clientes, principalmente do setor madeireiro e papeleiro,
e tem um faturamento, que ele preferiu não divulgar por receio
de causar inveja a muitos profissionais que estão a mais tempo
no ramo. "O dia-a-dia na Advocacia é uma questão de
paixão e nada supera essa sensação. A seriedade e
a perseverança com que a profissão é conduzida são
os quesitos essenciais para atingir-se seus objetivos".
Mesmo que a carreira privada seja um risco para qualquer profissional
que busca a estabilidade financeira, Coutinho acredita que, com convicção
e com determinação, qualquer bacharel pode superar as dificuldades
da profissão para conquistar seu verdadeiro objetivo. "A advocacia
nos permite superar nossos objetivos. Não há limite para
chegar quando o profissional advoga e quer chegar ao sucesso", completa.
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