ESTÁGIOS: SOB O PONTO DE VISTA DOS ESCRITÓRIOS

Por Jefferson Lemos - RJ
Folhear os cadernos de empregos dos jornais e cadastrar currículos nos sites de escritórios e empresas costuma ser o primeiro passo para a conquista de uma vaga de estágio na área do Direito. Mas embora as oportunidades sejam muitas, vale lembrar que um perfil profissional atraente pode fazer diferença na hora de colher bons resultados.
Cada vez mais as empresas estão recrutando estudantes com formação acadêmica sólida e quem possui bons conhecimentos em inglês e outros idiomas como o espanhol, e sabe mais de do que simplesmente ligar o computador, está em vantagem em relação a outros candidatos. Mas o que poucos imaginam é que não adianta tudo isso se o candidato não souber dominar a língua portuguesa.
A deficiência herdada da precariedade dos ensinos básico e médio se tornou um grande problema e está fazendo com que empresas e escritórios – sejam eles grandes ou pequenos – passem a exigir nos processos de seleção que o futuro advogado saiba colocar suas idéias no papel.
Foi pensando nisso o escritório Siqueira Castro Advogados Associados, no centro do Rio de Janeiro, especializado em Direito Empresarial, começou a inserir testes de redação em seu processo seletivo. “Se você perguntar quantos livros um candidato ao estágio leu no ano, ele vai responder que não leu nenhum. No máximo lê o caderno de esportes ou o segundo caderno dos jornais, e mesmo assim de vez em quando. Mas se não lê, como vai saber escrever?”, questiona Luciano Rinaldi, um dos sócios do escritório, que hoje conta com 110 estagiários.
Segundo ele, a redação foi a fórmula encontrada para “separar o joio do trigo”. “Não é um problema que eles trazem das faculdades, mas elas deveriam, pelo menos, dar mais atenção a isso. Muitos estagiários têm dificuldades até para usar a crase e fazer concordâncias”, reclama.
Para Sérgio Nery Barbalho Maia, sócio do escritório Daniel Advogados, com representação no Rio de Janeiro e São Paulo e atuação voltada para a área da propriedade intelectual, que conta com sete estagiários nas duas cidades, a solução foi avaliar durante o processo de seleção não apenas o currículo acadêmico do candidato, mas também o boletim escolar do ensino básico e médio.
“Como as faculdades têm que ministrar as disciplinas específicas do Direito, é lá que vamos buscar informações sobre o desempenho do candidato na disciplina”, explica. No escritório, os estagiários também passam por avaliação de seis em seis meses, onde suas performances são acompanhadas.
Já Heitor Bastos Tigre, sócio do escritório Heitor Bastos- Tigre, Coelho da Rocha e Lopes Advogados Associados, também no centro do Rio de Janeiro, que conta hoje com 38 estagiários, vai além. “Na minha opinião, 95% dos candidatos ao estágio não sabem escrever. Muitos chegam querendo redigir pareceres, mas não sabem nem escrever um bilhete. E pior, não fazem questão de aprender”.
Há alguns anos, o escritório chegou a contratar professores de Língua Portuguesa para tirar as dúvidas dos estagiários, mas segundo Heitor, eles não demonstraram interesse pelas aulas. “Não lêem revistas nem jornais e só assistem televisão. Deviam saber que o advogado tem que ser seletivo no que lê. Mas esse não é um problema exclusivo da área de Direito, acontece em todas as profissões”, avalia.

Quem pensa que falsificar os dados do currículo é garantia de sucesso no processo de seleção, está muito enganado. Os sistemas de avaliação de escritórios e empresas estão cada vez mais atentos em checar as informações prestadas, separando os que levam os estudos a sério dos espertalhões.
Na última seleção de estagiários do Grupo BG, companhia integrada de gás, líder em exploração, produção, transmissão e fornecimento de gás natural, com investimentos também no setor de petróleo e energia, presente em mais de 20 países, apenas metade dos que fizeram a prova pela internet conseguiram o mínimo de 50% de acertos nas questões que incluíam gramática e redação (em português e inglês), classificando-se para a próxima etapa: a dinâmica de grupo.
“Mesmo assim, na dinâmica ainda flagramos deficiências graves como candidatos que falavam ‘menas’ e ‘pobrema’. No mínimo devem ter pedido para alguém ajudá-los a fazer a prova pela internet”, cogita Ana Paula Braga Nata, coordenadora de Recursos Humanos da empresa, que atualmente conta com quatro estagiários de Direito em São Paulo, três no Rio de Janeiro e muitos outros em vários países. “Muitos candidatos também passaram no currículo a idéia de que foram formados em Harvard, mas não sabem mais do que o inglês básico”, completa.

Muitas vezes o estagiário ingressa no mercado ignorando os trabalhos a serem exercidos no novo ambiente e acaba assustado com a rotina que terá de enfrentar. O temor e a insegurança fazem com que ele não consiga alcançar de início os índices de produtividade esperados.
“A universidade prioriza a teoria. Não conheço uma faculdade que promova, por exemplo, excursões aos fóruns para mostrar ao aluno como é que ele funciona e quais funções cada um tem lá. Tem estagiário que chega aqui sem nunca ter colocado as mãos num processo. Felizmente, de uns cinco anos para cá esta realidade está mudando com a criação dos escritórios modelos nas universidades, mas a iniciativa ainda é insuficiente”, avalia Luciano Rinaldi, do escritório Siqueira Castro Advogados.
A falta de matérias voltadas para a área financeira, como a matemática e a contabilidade, por exemplo, são outras falhas encontradas por ele no ensino do Direito nas universidades. “Atualmente, 70% dos problemas das empresas que contratam os escritórios envolvem essas áreas“, justifica Luciano, lembrando ainda deficiências que têm observado no ensino de algumas disciplinas como Propriedade Intelectual, especialidade de seu escritório.
Sérgio Nery, do escritório Daniel Advogados, ressalta que as faculdades deveriam dar mais atenção à disciplina Processo Cível, lembrando que é através dela que os escritórios se comunicam com a Justiça. “Os estagiários chegam aos escritórios apenas com noções da matéria que justamente consiste na parte prática do Direito”, argumenta. Nery também defende que as faculdades ensinem algo sobre a captação de clientes. “Devia fazer parte do Direito Empresarial ou mesmo ser colocada como disciplina eletiva”, sugere lembrando que a competitividade do mercado é acirrada.
“O que acontece hoje é que as faculdades estão exigindo muito pouco dos alunos. Muitos professores são juízes ou advogados que têm outros trabalhos. Com a dupla jornada ficam sem tempo para poder se dedicar exclusivamente à faculdade. Além disso, muitos professores dão aulas em várias universidades e acabam não dando conta de todo o serviço”, avalia Silvana Guerino, líder de Processo Cível da Ampla, concessionária de energia elétrica que atua em vários estados e conta com 11 estagiários no Rio de Janeiro.
Ela lembra que muitos estagiários saem das faculdades sem conhecer sequer o perfil do profissional de Direito. “E quase nenhum deles sabe como uma empresa funciona”.
Retranca 3
Para compensar as deficiências do currículo acadêmico, escritórios e empresas buscam qualificar por conta própria seus estagiários. O escritório Heitor Bastos-Tigre, Coelho da Rocha e Lopes Advogados Associados oferece cursos de especialização e línguas (principalmente o inglês e o espanhol), além de participação em seminários e palestras. Mas ao fim da atividade, o estagiário é obrigado a fazer ele próprio uma palestra sobre o que aprendeu, para que os demais estagiários e advogados do escritório possam compartilhar do novo conhecimento.
“Procuramos pagar salários acima do mercado, mas o estagiário tem que mostrar o seu valor. É preciso muita responsabilidade. Ele não pode tirar fotocópia de uma petição e esquecer de anexar a última folha, por exemplo. Como é que o advogado vai reagir na frente de um juiz quando olhar e não ver o papel?”, ressalta Heitor Bastos, que também adotou no escritório a política das portas abertas, para deixar os estagiários e até mesmo os advogados já formados mais à vontade.
“Quando me formei, na década de 70, o chefe não recebia os estagiários. Mas aqui eles têm total acesso aos advogados. Também não existe hierarquia no tratamento. Todos são chamados pelo nome. Ninguém é chamado de doutor. Minha porta é a primeira a ficar sempre aberta para eles”.
Mas além da qualificação, as companhias e escritórios querem ter ao seu lado jovens com perfil dinâmico, que, sobretudo, demonstrem vontade de trabalhar e interesse em aprender. Características que, em muitos casos, podem suprir a falta de experiência.
“O estudante de Direito tem que saber que ao entrar na universidade ele deixou de ser estudante para se tornar um profissional em início de carreira. Infelizmente, muitos acham que só passam a ser advogados depois de formados”, avalia Heitor Bastos.
E é no dia-a-dia que o estagiário aprende que os pequenos detalhes são importantes. “Muitas vezes ele acaba se preocupando tanto com o conteúdo de uma petição que, por falta de atenção, acaba errando na hora de digitar o número do processo. Isso pode alterar o destino dessa petição e afetar todo um trabalho, já que os escritórios funcionam cumprindo prazos”, exemplifica Sérgio Nery, do escritório Daniel Advogados.
Segundo ele, vale lembrar que a função básica de um estagiário é o acompanhamento processual, ou seja, fazer a ponte entre o escritório e o Fórum, embora alguns com maior noção da profissão, não vejam essa tarefa com bons olhos. “Eles não gostam de ir ao Fórum e nem de ler o Diário Oficial. Querem logo sentar na cadeira e peticionar, como se já fossem advogados formados. Para evitar o desestímulo, no processo de seleção já deixamos bem claro que ele vai ter que galgar todas as etapas do processo”, explica Sérgio Nery.
“Na verdade, o que as empresas esperam do estagiário é domínio da língua portuguesa, cultura geral, postura, criatividade, interesse e pontualidade”, resume Silvana Guerino, da Ampla.
Retranca 4
Na maioria dos escritórios e empresas, sejam eles grandes ou pequenos, a rotatividade entre os estagiários costuma ser grande. Em média, 15% deles acabam contratados ao fim do processo de aprendizado. Alguns são dispensados por não atenderem às expectativas do contratante, outros desistem por conta própria para tentar novas oportunidades em concursos públicos. Uma pequena parcela só descobre no estágio que escolheu a profissão errada.
“Tem uns que ficam no escritório quatro anos, enquanto outros não passam de dois meses. Alguns não se adaptam ao ritmo de trabalho. Outros querem mais tempo para se dedicar aos estudos”, conta Heitor Bastos, confessando que é difícil encontrar bons estagiários para trabalhar com advocacia de massa. “É difícil recrutá-los de universidades ditas de primeira linha. Eles costumam não se interessar”.
Atualmente, escritórios e empresas contratam estagiários não apenas por representarem mão-de-obra qualificada e barata que ajuda a tornar os preços dos serviços mais competitivos para os clientes. “É também uma oportunidade de captar grandes talentos a baixo custo”, ressalta Sérgio Nery, lembrando que os estagiários também não costumam trazer vícios de outros escritórios, se adaptando melhor ao sistema de trabalho.
Outra vantagem da mão-de-obra estagiária é a formação de quadro futuro, principalmente nas empresas especializadas. “No setor elétrico, por exemplo, sai mais barato e mais rápido formar mão-de-obra especializada do que buscá-la no mercado”, explica Silvana Guerino, da Ampla. Ana Paula Braga Nata, do Grupo BG, concorda: “É difícil achar profissional qualificado no mercado de energia (GNV) e, quando achamos custa muito caro. Além disso, não podemos ter apenas pessoas com mais idade e prestes a se aposentarem trabalhando para a empresa”.