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AS
FACULDADES E O FUTURO DA ADVOCACIA
Por Jefferson Lemos
- RJ
O
curso de Direito era freqüentado antigamente apenas por aqueles que
tinham vocação. Mas hoje, vê-se muita gente ingressando
na carreira para ganhar dinheiro e status. Ser admitido numa faculdade
de Direito não é mais sinônimo de um futuro assegurado
como advogado, promotor, delegado ou juiz. Atualmente, o mercado de trabalho
mostra que o diploma não é mais condição suficiente
para o sucesso profissional.
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) acredita que parte da culpa esteja
no crescimento descontrolado das faculdades de Direito a partir da década
de 1990. Segundo a OAB, nos últimos anos, o número de instituições
cresceu pelo menos 50 vezes, totalizando hoje mais de mil em todo o país,
cinco vezes mais do que nos Estados Unidos, onde se consulta advogado
até para brigar com namorado.
Para o presidente da OAB-RJ Octavio Gomes, a multiplicação
exagerada dos cursos tem degradado o ensino de Direito, ou seja: ensina-se
mal e aprende-se muito pouco. “Infelizmente, muitas faculdades não
estão tendo o compromisso devido com a formação do
bacharel. A Ordem tem-se manifestado contra o Ministério da Educação
(MEC), que tem autorizado a abertura de alguns cursos considerados de
'fundo de quintal'”, critica, deixando claro que é preciso
mais rigor nos critérios de autorização para criação
de novos cursos e na fiscalização dos já existentes.
A OAB-SP já defende a aprovação de lei para forçar
o MEC a levar em conta o parecer da Ordem antes de autorizar novos cursos.
Na avaliação da OAB, “as faculdades tornaram-se investimentos
de baixo custo”, não exigindo muito mais do que salas, professores,
livros, quadros negros e bastões de giz. Para aumentar a capacidade
de alunos, há casos em que as aulas são ministradas até
de madrugada, com cursos funcionando de 3h às 7h.
Em algumas faculdades, doutores e mestres aparecem no papel, como responsáveis
pelos cursos, mas quem ministra as aulas de fato são professores
assistentes com baixa qualificação e quase nenhuma experiência.
A qualidade dos bacharéis pode ser medida pelos índices
de reprovação nas provas da OAB, consideradas por muitos
como um novo vestibular. Em algumas delas, cerca de 90% dos candidatos
não conseguem passar. Triste estatística que alguns preferem
chamar de injustiça, considerado-se que todos os profissionais
que prestam o exame estudaram em faculdades aprovadas e que funcionam
com autorização do MEC.
“Mas a injustiça na realidade é do MEC, que autoriza
esses cursos que só visam ao lucro. A prova da OAB tem apenas o
rigor necessário. Exige o mínimo de conhecimento que um
advogado precisa ter para o exercício da profissão”,
faz questão de ressaltar Octavio Gomes, lembrando que, para tentar
minimizar o problema, a Ordem tem divulgado o “ranking” das
faculdades, no qual as que são consideradas aptas ao ensino do
Direito levam o selo “OAB recomenda”.
Fato é que, para retirar a carteira que habilita os bacharéis
a exercerem a profissão, candidatos vêm recorrendo ao ensino
paralelo de cursos preparatórios para aperfeiçoarem seus
conhecimentos. E tais cursos já se proliferam tanto quanto as próprias
faculdades.
Entre a teoria e a prática
A grade curricular também costuma ser apontada como outro problema
que prejudica a qualidade das faculdades de Direito, mas algumas mudanças
já estão sendo colocadas em prática, principalmente
pelas instituições privadas. Para alguns estudantes, deveria
ser dada mais atenção a disciplinas de práticas jurídicas.
“Os cursos, de modo geral, costumam dedicar-se muito à teoria”,
avalia Juliana de Assis Klimeck Gouvêa, de 22 anos, aluna do 8o
período da Faculdade Cândido Mendes, uma das mais conceituadas
do Rio de Janeiro, que conta, inclusive, com um escritório modelo.
Para a estudante, o estágio regulamentado na área de Direito
também deveria ser antecipado para o quinto período, quando
deveriam começar a ser ministradas as disciplinas práticas
e liberadas as carteiras provisórias da Ordem. “O estágio,
a partir do sétimo período, como acontece hoje, deixa muito
pouco tempo para adquirir-se bagagem”, justifica, com a experiência
de quem começou a estagiar no segundo período trabalhando
para a Defensoria Pública.
O presidente da OAB/RJ Octavio Gomes vai além, defendendo a liberação
da carteira provisória da Ordem logo no segundo ano da faculdade,
desde que elas passem a ministrar a prática forense no mesmo período.
“Hoje não há movimento nesse sentido, mas nada impede
que essa modificação seja sugerida”, destaca.
Já o professor de Direito Constitucional da Universidade Federal
Fluminense (UFF) Cláudio Pereira de Souza Neto, discorda da antecipação
do estágio. “Quando o estágio começa a ser
feito cedo demais, impede que o estudante leve a sério o curso
universitário”. Ele argumenta que alguns escritórios
e departamentos jurídicos de empresas costumam recrutar estagiários
apenas para serem usados como mão-de-obra barata. “Eles acabam
reféns de elevadas cargas horárias de trabalho (seis, oito
e até dez horas diárias) e só aprendem a resolver
casos simples que seguem um padrão. É justamente a teoria
que vai ajudá-los nos casos difíceis, que fogem dessa regra”,
justifica.
Embora também elogie a iniciativa dos escritórios modelos
criados pelas faculdades, o professor Cláudio Pereira destaca que
só o estágio proporcionará o conhecimento prático
necessário à profissão. “A experiência
só se adquire trabalhando nos escritórios. Por mais que
as faculdades tentem simulá-los, esse esforço isolado não
é suficiente”, opina, ressaltando que as faculdades também
deveriam acompanhar o aprendizado do aluno durante o estágio. “Infelizmente,
muitas estão limitadas a firmar convênios com escritórios
e empresas interessadas no aluno. O processo não passa de uma formalidade
no papel”.
Para o professor da UFF, as faculdades poderiam investir em escritórios
e consultorias de Direito nos mesmos moldes que investem em empresas juniores
que são montadas para outras áreas do ensino acadêmico.
“No Direito, ainda não é tradição, mas
nada impede que venha se tornar”, sugere.
Cursos se adaptam ao mercado
Uma tendência recente das faculdades de Direito tem sido a adaptação
de sua grade curricular ao mercado de trabalho da região onde atuam.
Um exemplo claro é a dedicação de umas à formação
do advogado, enquanto outras enfocam a preparação para concursos
públicos. Segundo o professor Cláudio Pereira de Souza Neto,
essa diferença é nítida quando se compara o ensino
da advocacia no Rio de Janeiro com o ensino em São Paulo.
“No Rio, que já foi capital federal e tem grande número
de funcionários públicos, além de uma economia estagnada,
a prioridade é pela preparação para concursos. Já
em São Paulo, onde a economia é mais dinâmica, dá-se
mais atenção em formar o profissional para atuar na iniciativa
privada”, explica o professor. “Onde o mercado é acirrado
e as oportunidades são menores, a procura dos alunos pelos concursos
públicos refletem uma expectativa de segurança. É
uma tendência natural”.
Moradora do Rio de Janeiro, a estudante Cíntia Naira Pimentel Queiroz,
de 24 anos, aluna do 7o período de Direito da Universidade Estácio
de Sá, conhece bem essa realidade, pois teve que optar entre estágios
mal remunerados e um emprego em outra área que garantisse seu sustento
e o próprio pagamento do curso. “Gostaria de me dedicar à
advocacia depois de formada, mas o concurso público começa
a falar mais alto devido à falta de oportunidades que compensem
financeiramente. Na minha sala, pelo menos 70% dos alunos pensam da mesma
forma”, revela.
Outra tendência é que os cursos se tornem cada vez mais segmentados
para atender também às expectativas dos alunos. “Nos
primeiros períodos, são ensinados os fundamentos teóricos.
Depois, são ministrados os conteúdos profissionalizantes
e, por fim, a especialização, que costuma ser o grande diferencial”,
observa o professor Cláudio Pereira, argumentando que, se um aluno
tem interesse na advocacia empresarial, não deveria ter tantas
disciplinas da área pública e vice-versa.
As faculdades já estão começando a reservar o último
ano do curso para essa especialização, como forma de atender
à maior exigência do mercado. “Na faculdade, você
estuda Direito Penal do 3o ao 9o período, mas só há
dois períodos com aulas de Direito Tributário, que é
o que interessa muito mais a alunos que vão- se dedicar à
especialidade”, ilustra a estudante Juliana Gouvêa.
Mas, ainda na maioria das faculdades particulares, essas especializações
ocorrem por meio de matérias eletivas ou cursos de extensão
que são pagos à parte.
Ou seja, muitas vezes, o aluno não tem condições
de arcar com essas despesas extras no fim do mês. “Além
disso, os estágios que remuneram melhor costumam exigir certo grau
de especialização. Como o aluno vai conseguir um bom estágio
se não se especializa na faculdade?”, questiona a estudante
Cíntia Pimentel.
Para tentar preencher esta lacuna, a OAB-RJ vem realizando palestras e
seminários gratuitos com ministros, desembargadores e advogados
de diversas áreas. A OAB oferece ainda um serviço de consultoria
jurídica para auxiliar o estudante de Direito e o advogado iniciante
e chega a atender a cerca de trinta profissionais por dia. “Eles
podem ainda contar com o nosso Centro de Estudo e Pesquisa, onde encontrarão
material sobre os mais variados setores”, acrescenta o presidente
Octavio Gomes.
A chave do problema
Mas há quem aponte que o problema maior não sejam as deficiências
que possam ser encontradas no ensino jurídico. A culpa maior da
má-formação nos cursos de Direito pode estar nas
deficiências que os alunos levam dos Ensinos Fundamental e Médio.
Isso determina que, nos dois primeiros anos dos cursos, as faculdades
precisem destinar tempo, revendo conceitos primários da Língua
Portuguesa e estimulando a leitura.
Mas nem sempre os esforços das faculdades para suprir tais deficiências
são eficientes. “O Ensino Médio valoriza o aprendizado
das regras gramaticais, mas não ensina o aluno a usar esses conhecimentos
para produzir um texto coerente. Muitas faculdades acabam incidindo no
mesmo erro. Além do mais, é difícil corrigir em um
ou dois períodos uma década de ensino precário”,
avalia o professor Cláudio Pereira.
Há casos ainda em que professores não conseguem nem estabelecer
um simples diálogo com seus alunos, tão grande é
a distância cultural e intelectual entre eles. E esperar que o mercado
de trabalho se encarregue da seleção natural parece uma
solução simplista e, mais que isso, injusta, pois os estudantes
investem vultuosos recursos em sua formação acadêmica.
“A situação é gravíssima e ilustra que
nosso país não tem compromisso sério com a educação
de Ensino Fundamental e Médio. Infelizmente muito se fala, mas
pouco se faz”, avalia Octavio Gomes.
“É inconcebível que, no Rio de Janeiro, o estudante
não possa ser reprovado em escola pública. Tal regra tem
de mudar”, critica o professor Ayrton Paiva, presidente da Sociedade
Unificada de Ensino Superior e Cultura (SUESC) e diretor da Escola Superior
de Advocacia da OAB-RJ, que assim como outras faculdades já oferecem
cursos gratuitos de Língua Portuguesa para os alunos com resultados
satisfatórios.
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