
Memórias
de um Estudante de Direito
Por Fabiano Saraiva
Recordações de um tempo em que era estudante de direito.
Nessa época, tornei-me amigo de Rodrigo Linne Neto, colega de
faculdade e filho do Ministro do Tribunal Superior do Trabalho, o ilustre
Dr. Indalécio Gomes Neto, grande amizade que permanece incólume
até hoje.Um tempo depois, tínhamos que cumprir a carga
horária de eventos jurídicos, para podermos nos formar.
Foi quando recebi um convite para participar de um congresso de Direito
do Trabalho, organizado pelo pai de Rodrigo, Ministro Indalécio,
na cidade de Curitiba. Nesse congresso, estariam presentes várias
autoridades, dentre elas, onze ministros, sendo a maioria do TST e o
então Ministro da Justiça, o ilustre Dr. Nelson Jobim.
Este, homem alto, de entonação de voz vibrante, com uma
grande cultura jurídica, filosófica e histórica.
Em sua magnífica oratória, relembrava sua época
de Deputado Federal Constituinte. Em um dado momento de sua conferência,
manifestou-se na direção do Ministro Almir Pazianoto e
disse: -Almir, você lembra que na Constituinte, os artigos para
serem aprovados tinham que ser genéricos e nunca específicos.
Pois ao contrário, nunca seriam aprovados? Aquele comentário
me chamou a atenção, pois, se os artigos não eram
específicos, diretos, sempre dariam margem às mais variadas
interpretações. Deste modo, nascia a imperiosa missão
dos advogados em encontrar o sentido real da Lei. Aos ínclitos
juízes, caberia interpretá-la sempre pela maneira mais
justa e correta. Ao meio-dia, fomos a uma churrascaria para almoçar.
Do meu lado esquerdo, sentou-se o Ministro Amir Pazzianotto Pinto; no
direito, o Ministro Jobim; na frente, o Ministro Indalécio e,
ao lado de Rodrigo, o Dr. Ricardo Sampaio. Durante o almoço,
me aventurei a sugerir a criação de uma Medida Provisória
que pudesse compensar os créditos de exportação
com os débitos de INSS. Pois, na região calçadista,
muitas empresas exportadoras estavam falindo, mesmo possuindo milhões
de reais em créditos tributários de IPI. O fato impeditivo
consistia na impossibilidade de as empresas não conseguirem a
Certidão Negativa de Débito CND do INSS, por estarem em
débito com a Previdência Social. Assim, não conseguiam
o ressarcimento de IPI. As dificuldades das empresas tiveram origem
com a troca da banda do dólar. Para minha surpresa, porém,
ninguém falou nada sobre o assunto. Eu não sabia se tinha
dito alguma coisa sem importância ou se era tão importante
que as pessoas ficaram refletindo. No final do almoço, o Ministro
Jobim sacou um porta charutos do bolso do paletó e perguntou:
-Alguém se importa que eu fume? Fiquei pensando comigo mesmo:
"Quem se importaria, sendo o homem o Ministro da Justiça?”
O Dr. Jobim continuou:- Alguém aceita? Como existiam apenas dois
charutos, ninguém aceitou. Naquele instante, eu pensei: "No
jantar ele vai fazer a mesma coisa". O jantar foi na própria
casa do Ministro Indalécio. Encontravam-se vários ministros,
autoridades e dois estudantes de direito, Rodrigo e eu. A conversa entre
personagens tão ilustres e cultas, mais parecia um conclave de
alto nível, tais as frases rebuscadas e ricas de ensinamentos
históricos, filosóficos e jurídicos. Na sala, logo
após o jantar, sentado à minha direita, estava, mais uma
vez, o ilustre Ministro Jobim. Quando, subitamente, ele sacou o porta
charutos e perguntou:- Alguém se importa que eu fume? A coletividade
respondeu que não. Então ele continuou: - Alguém
aceita? Foi quando, para surpresa de todos, corajosamente, eu respondi
que sim. Foi uma risada geral. Todos os outros ministros falavam, em
tom de brincadeira: - O rapaz filou um charuto do Ministro! Prontamente,
Jobim me alcançou o charuto e a guilhotina e perguntou: - Você
fuma charuto? - Claro! Ainda mais se for com o Ministro da Justiça.
Nesse momento, o professor René Ariel Doti presenteou-me com
a obra de sua autoria, Reforma Penal Brasileira, Ed.Forense, com a seguinte
Dedicatória: "Ao nosso bom amigo Fabiano, com a satisfação
do encontro, em casa de amigos, e na noite que fumou o charuto da boa
convivência". Agradeci a dedicatória e aproveitei
o momento para pedir uma dedicatória do Ministro Jobim, no meu
certificado do congresso. Prontamente, pegou a caneta e escreveu:"
Fabiano, uma esperança!" Eu e Rodrigo achamos o máximo
tudo aquilo que aconteceu naquela noite. Talvez os ministros nem se
lembrem mais do acontecido. Porém, o que importa foi a coragem
de dois estudantes de direito em participarem ativamente das conversas
e absorvendo, como esponjas vivas, o maravilhoso conhecimento desses
eminentes juristas. Meses após o acontecimento, uma medida provisória
foi publicada, permitindo a compensação de créditos
tributários de IPI com dívidas do INSS. Teria sido meramente
coincidência ou a conversa no almoço teria servido de inspiração?
Nunca saberei. Mas isto serviu de incentivo. Hoje, formado, procuro
acreditar nas minhas idéias e levá-las adiante, mesmo
que pareçam sonhos impossíveis de realizar. Descobri que
a justiça está dentro de nós. E, se a lei for injusta,
cabe aos advogados e aos juristas tentarem transformá-la em justa.