SOBRE TORNAR-SE UM PROFISSIONAL

Por Susan G. Manch

Muito freqüentemente, indivíduos altamente talentosos crêem ser profissionais a partir do momento em que se formam na faculdade de Direito. Com seu diploma recém-emitido, eles acreditam que a responsabilidade do profissionalismo lhes foi outorgada. Por esse motivo, à medida que aprendem seu ofício e integram um escritório ou departamento jurídico, o profissionalismo não é uma prioridade na lista de aspectos a melhorar, porque – você adivinhou – eles acreditam já possuírem tal atributo.

FOCANDO NO CONCRETO À CUSTA DO INTANGÍVEL
As práticas de avaliação de muitos empregadores da área reforçam esta linha de pensamento ao não focar sua atenção em qualidades pessoais ou comportamentos na fase de avaliação da performance do processo. Eles medem o progresso ou as deficiências na escrita, análise e habilidades comunicativas, mas geralmente falham ao avaliar atributos, como adaptabilidade e determinação (ou avaliam, mas falham ao fornecer feedback avaliativo). Mesmo quando os escritórios listam critérios referentes a comportamentos profissionais, tais como iniciativa e maturidade, a maioria dos avaliadores desprezam tais critérios ou os ignora por considerarem-nos muito difíceis de serem mensurados. Pior ainda, alguns avaliadores atribuem uma nota à performance de um advogado nesta área, mas falham ao elaborar o comentário sobre por que ele tira nota “um” pela Habilidade de Inspirar Confiança, ao invés de um “quatro”. Para muitos advogados, a primeira vez que ouvem falar de profissionalismo como um padrão de performance claro e separado é durante uma conversa sobre parcerias ou promoções. E, se essa conversa acontece, provavelmente, significa que tal pessoa está sendo informada de que ainda não atingiu o nível esperado de profissionalismo aos olhos dos chefes da organização.
Foi testado e provado que indivíduos orientados para a obtenção de metas trabalharão diligentemente para atingirem padrões de performance claramente articulados e superarem-nos. Ainda assim, muitos de nós tremem perante a idéia de tentar mensurar o profissionalismo de um indivíduo, talvez porque ser profissional signifique algo único para cada pessoa e cada organização. Ou talvez isso nos incomode, pois nos força a lidar com aspectos pessoais, até mesmo imutáveis, do outro. Afinal de contas, promover o desenvolvimento de advogados pode-se beneficiar da clareza e orientação no assunto do profissionalismo, e o processo de avaliação formal pode fornecer o veículo perfeito para as expectativas de comunicação e padrões de performance.

MENSURANDO COMPORTAMENTOS PROFISSIONAIS
Os escritórios não precisam evitar direcionar sua atenção aos comportamentos e às qualidades pessoais necessárias para que alguém seja visto como um “profissional” na organização e na área como um todo. Processos de avaliação que descrevem tais critérios podem ter impactos positivos tanto a curto quanto longo prazo. Ao articular atributos específicos e ações consideradas apropriadas, advogados em formação tomam ciência de que isso é o que o escritório valoriza e recompensa. Ao mensurar o progresso e prover feedback sobre o desenvolvimento satisfatório destes atributos regularmente, ele pode ajustar-se ou melhorar com o passar do tempo. Profissionalismo pode ter significações distintas para pessoas diferentes, mas os seguintes termos são os que mais se encaixam nos propósitos da maioria das organizações ao comunicar no que profissionalismo consiste:
-Habilidade de inspirar confiança;
-Adaptabilidade;
-Comprometimento com o bem maior da organização;
-Determinação;
-Estabilidade;
-Iniciativa;
-Maturidade;
-Comportamento pessoal;
-Respeito para com ele e com os outros
Pode haver outros que se enquadrem em sua cultura ou expectativa, mas eles servem de ponto de partida. “Ótimo. Eu concordo, mas, como posso mensurar qualquer um desses aspectos? Eles não são muito subjetivos, ou mesmo intrusivos?” Eles são, de fato, difíceis de ser medidos e estão sujeitos às influências da personalidade e do gosto individual, mas não é preciso que eles sejam intrusivos tampouco injustamente aplicados. Há meios tangíveis de avaliar tais atributos.
Veja a seguir sobre formas criativas para dar foco a seu pensamento avaliativo:

HABILIDADE DE INSPIRAR CONFIANÇA
Você sabe que tem confiança num indivíduo quando delega a ele mais e mais responsabilidade, quando pede que ele fale diretamente com o cliente, quando pede que ele supervisione outros, e quando tem certeza de que o resultado do trabalho será o esperado. Você sabe que clientes ou outros em sua organização têm confiança no advogado, quando você recebe comentários positivos sobre o seu trabalho, quando o cliente pede para tê-lo em seu próximo projeto e quando outros supervisores tentam incluí-lo em outras tarefas.

ADAPTABILIDADE
A habilidade de um indivíduo de ser flexível e fazer o melhor trabalho possível sob uma variedade de circunstâncias é adaptável. A adaptabilidade está em evidência, quando alguém trabalha 36 horas consecutivas sem reclamar, porque este é o tempo que leva para que o trabalho fique pronto. Também se percebe a adaptabilidade, quando o advogado consegue tomar depoimentos em um dia e, então, preencher os documentos correspondentes logo em seguida, se necessário.

COMPROMETIMENTO COM O BEM MAIOR DA ORGANIZAÇÃO
Há evidência concreta desse traço, quando o advogado vai a cinco campi recrutar estagiários, ainda que seu maior caso esteja no auge. Você reconhece o comprometimento, quando ele sofre por derrotas ou casos perdidos – não porque ele odeie perder, mas porque ele odeia desapontar o cliente.

DETERMINAÇÃO
A determinação é freqüentemente atribuída de maneira errônea àqueles que cobram grande número de horas do escritório, mas apenas a cobrança de horas não é suficiente para configurar-se em presença concreta de determinação. Você sabe que alguém é realmente determinado, quando se oferece para acompanhá-lo a um julgamento sem cobrar pelo tempo, simplesmente porque deseja aprender. Você percebe a determinação no advogado que passa cinco horas com o novato da empresa analisando processos, porque ele quer que o outro aprenda os procedimentos adotados.

HABILIDADE DE TRABALHAR SOB PRESSÃO/ESTRESSE
Isso está ficando muito pessoal, você dirá. Mas, na verdade, a avaliação da habilidade de um funcionário para ajustar-se de maneira bem-sucedida às demandas do trabalho é tão apropriado quanto mensurar a qualidade de sua escrita. O advogado está interessado na substância do trabalho e engajado na sua prática diária, ou ele expressa insatisfação e demonstra falta de curiosidade intelectual? Ele está sendo engolido pela responsabilidade do trabalho, ou energizado e empolgado com as perspectivas? Fazer perguntas como essas contribuirá para avaliar a combinação entre a resposta de um advogado em desenvolvimento à pressão e ao estresse e às condições com as quais ele precisará trabalhar ao longo do tempo.

INICIATIVA
Esse é um aspecto do profissionalismo que freqüentemente aparece em fichas de avaliação formal. A fim de juntar as melhores informações sobre esse atributo, as firmas deveriam procurar por evidências do indivíduo que busca o trabalho, questiona, assume responsabilidades pelo desenvolvimento de sua carreira, e está ciente das expectativas que surgem à medida que ele é promovido no escritório e assume novas responsabilidades.

MATURIDADE
A maturidade não tem nada a ver com a idade. Há quarentões imaturos e pessoas maduras na faixa etária dos vinte anos. Num ambiente de trabalho, a maturidade é definida pela presença de julgamento, sabedoria e reflexão aplicados à forma como o individuo toma decisões e interage com os clientes e os outros. Sinais de maturidade incluem saber quando falar e quando ouvir, ter a percepção das possíveis conseqüências das ações dos outros e ser capaz de dividir os louros ou permitir que os outros os recebam sozinhos. A maturidade se faz notar mediante atividades de ensino e orientação de membros juniores e na qualidade das relações desenvolvidas com seus pares.
Tal característica é visível, quando se entende que o merecimento vem com críticas significativas.

COMPORTAMENTO PESSOAL
Correndo o risco de soar como uma senhora centenária, o código de vestimenta e comportamental tem impacto no sucesso do profissional na maioria das organizações. A fim de integrar-se ao ambiente, ser coerente com os trajes e o decoro de advogados mais experientes na sua firma (assim como dos clientes) e reconhecer que a primeira impressão dura uma vida inteira são pontos fundamentais para aquele que se propõe a uma conduta profissional. Nas salas de reunião e escritórios de hoje, trajes informais não têm mais lugar.
Se um membro sênior do escritório fica em dúvida quanto à pessoa ser um sócio ou o entregador de documentos, é pouco provável que ele receba uma incumbência importante. Se um parceiro se sente constrangido de levar um sócio a um jantar com um cliente porque ele não parece capaz de dominar as regras básicas de etiqueta, isso atrapalhará seu desenvolvimento a longo prazo. Se um sócio se dirige a seu parceiro como “cara”, o parceiro questionará seu julgamento em interações com clientes e outros advogados. Estudos mostram que vestir-se mais formalmente para um dia de trabalho ajuda novos profissionais a assumir suas responsabilidades de trabalho mais seriamente. E, aqui entre nós, alguém realmente consegue criar um visual profissional a partir de um par de calças cáqui amassadas e uma camisa de golfe?

RESPEITO PARA CONSIGO E COM OS OUTROS
A maioria das firmas passou a ver a importância de adotar uma cultura colaborativa à medida que crescem. A habilidade de supervisionar advogados em desenvolvimento, guiá-los e motivá-los é valorizada por organizações mais avançadas. Apenas faz sentido reforçar e recompensar tais comportamentos o mais cedo possível na carreira de um advogado por meio do feedback sobre esses atributos.
Ter respeito pela equipe de funcionários e por seus pares, assim como por seus supervisores, ter uma abordagem humana na interação com os outros e sentir-se orgulhoso de seu trabalho e empregador são sinais claros deste atributo.
DEPOIS DA AVALIAÇÃO
Ao contrário do que a maioria dos advogados recém-formados crê, o profissionalismo conquista-se com o passar do tempo – e apenas com muito trabalho e introspecção cuidadosa. Para a maioria, começa com o ganho da autoconsciência. Advogados em formação deveriam perguntar a si mesmos:
“O que os membros seniores pensam de mim? E os clientes?”
“Eu me comporto de forma compatível com a da maioria dos advogados bem-sucedidos aqui?”
Aqueles destinados ao sucesso usarão essa autoconsciência de forma que os outros perceberão que eles estão desenvolvendo e aprimorando novas habilidades e comportamentos.
É de interesse o empregador esclarecer expectativas e aconselhar da melhor forma possível sobre o desenvolvimento e a demonstração de tais habilidades, comportamentos e atributos pessoais. Há muito mais além da qualidade do trabalho legal para que alguém possa ser um advogado de sucesso.
O profissionalismo pode fazer a diferença entre o sucesso e a falha e é crucial direcionar, cedo e regularmente, a atenção dos advogados em formação para esse fato.